quarta-feira, 24 de março de 2010

Desintegração

Para Augusto dos Anjos

Certos dias, tudo se desintegra dentro de mim...
A distância entre o que sou e o que quero aumenta sem fim
A tristeza se propaga silenciosamente com um vírus,
Alimentando-se de tudo que brilha em meu corpo
Ao som da sinfonia deplorável de grito de um anjo morto.

Sentado em meio a labaredas do meu inferno interno
O som passa cortando minha pele congelada em frio eterno.
Lágrimas perfeitas esfaqueiam sorrisos em pânico
Pensamentos se enfrentam em bagunça simétrica
Desfilam horrores, desejos e lembranças heréticas.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O Caos Reina

Sonhos sonham com:
A macia mordida banguela de Artaud;
A cólica falciforme de Mallarmé;
A fúria plural de Breton.

Nada existe fora do mundo dos desafios rarefeitos...
Poças de sangue apenas recitam antipoemas lunares.

Memórias inéditas em forma de pancada
Têm saudade do tempo que a música era calma
E bailavam nos campos de antenas.

O ar vive entre azeites sensuais
E se auto-consome para libertar as nuvens
O firmamento se agita e desfere o arroto nuclear
Tudo, calmamente, começa a morrer.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O Solipsista

Só...
Preso na caverna do meu cérebro...
Vendo um desfile de imagens doentes,
Nada vive fora mim.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A Morte de Herr Samsa



Ubu Roi - Jean Miró

A morte de Mr. Samsa

Ah... Dor incessante,
Devora minhas entranhas estranhas.
Preso... Nesse corpo asqueroso,
Muitas pernas me carregam.
Hálito de nojo eterno.
Rastejo em calma relutante.

Pesadelo incessante...
Malditos pensamentos asfixiados
Voam no céu de uma realidade improvável.

Chega de sofrer!
Chega de viver!
Vejo meu corpo morrer ao poucos
Frente à sombra sorridente de meu Pai.

Há um fim além de mim!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Entropia, um poema.


A entropia é um termo utilizado pela física para designar a Segunda Lei da Termodinâmica. Ela mede o grau de desordem de um sistema.


“Todo sistema natural, quando deixado livre, evolui para um estado de máxima desordem, correspondente a uma entropia máxima” Definição comum de entropia.

Tudo sempre se perde...

O equilíbrio de tudo está comprometido.
A Energia não transformada em trabalho
Perde-se em dimensões ocasionais.

A mão destruidora desestabiliza o espaço.
A energia diluída consome o tempo.
O Caos sorri sorrateiramente, pois;
O mesmo ar que me mantém vivo
Apodrece minha carne assustada.

Assim acaba o mundo...
Assim acaba o mundo...
Não com um grito divino amoroso,
Mas com um sussurro terno e calmo.

Doce entropia que devora o mundo
Suga o calor das estrelas
E traz os cães da destruição
Para assistir ao espetáculo deplorável
Que é o mundo se autoconsumir.

E o resto...
O resto é silêncio de metralhadora descarregada!
Tudo sempre irá se perder...

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Eraser-poema

Para ler(ou não)ouvindo(ou não) Elephant Stone - Stone Roses


Sorriso de cores flácidas!
Amores pagãos nunca se pagão!
Ilusões ideológicas blasfemam no túnel
Azul-banana da minha consciência.

Língua erótica profere mantras:
Doces mentiras que acariciam.
Criam mundos verdadeiros
Para brinquedos viverem de verdade.

Chove muito aqui dentro,
Desta detestável casca vazia,
Pretensiosamente humana:
Carne rachada de cansaço.

O calor que queima no meu peito
É o mesmo que me congela alma.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Poema-delirio

Alfred Jarry e sua bicicleta filosófica

Cai do anticavalo doméstico...
Quebrei-me em mil pedaços de luz.
A máquina da verdade, cansada,
Inventa palavras que blefam.

Dancei de rosto colado com Artaud.
Vestido com minha roupa de delírio,
Feita de pele de animais-deuses.
Mergulhei sem fim dentro de mim.

Acordei cedo para ver o mundo morrer.
O coral de mudos me deixou surdo;
Agora só escuto sons em Preto & Branco.
Tenho medo de morrer sem ter vivido.

Jarry foi o Poeta grávido do caos,
Pescava planetas rebeldes
Em sistemas labirínticos e auto-limpantes
E babava absinto na minha boca confusa.

Almocei um Duchamp rebelde,
Na sala dos jantares eternos.
Assisti atônito e atômico
Uma sombra sincera devorar uma ideia.

Respiro, ainda que pela boca de outro.
Engasgo com as penas da Pata física.
Tenho tantas sobras dentro de mim,
Que começo a pingar pelo vão dos dedos.